Por que leio?

Não é por acaso que eu escrevo essas linhas na semana em que estou cadastrando os livros da biblioteca de minha escola. Mesma semana em que três bebês e duas professoras foram assassinados em Saudades, SC, dentro da creche. Mesma semana do falecimento de Paulo Gustavo (sim, agora esse texto ficou datado mesmo). Eu quero acreditar que algumas coisas não são por acaso. As outras, eu prefiro fazer do jeito mais correto, aquele jeito que eu “gostaria que fizessem para mim”. Ou que me pareçam corretas. Que façam bem aos outros. Que me façam bem. Ler me faz bem desde os cinco anos. 

Eu me alfabetizei com gibis da Mônica. Com placas de lojas e de ruas. Ler é algo tão visceral e orgânico pra mim que eu não processo quem não consegue ler “horário de saída a partir das 17h15” ou “não tiramos xerox” na porta. As pessoas parecem ter aversão, ou medo mesmo, das letras acolheradas, da palavra escrita, do seu som e significado. Pra mim, foi quase automático. Mas nem sempre é assim. A leitura, quando não é “orgânica”, é um hábito que, como qualquer outro, deve ser cultivado (na verdade, até quando é “orgânica", haja vista a quantidade vergonhosamente baixa de livros que eu li em 2020). É difícil alimentá-lo quando os pais não leem, quando os livros são “só pra elite” (não são, p*rra), quando a escola não tem biblioteca, ou até tem, mas não tem um profissional para cuidar dela como deve ser, recursos para manter o acervo, entre outros percalços. É difícil, mas não é impossível. Algumas coisas melhoraram. A cada dois ou três anos, as escolas públicas (ainda) renovam seus acervos de livros didáticos e literários através do MEC (enquanto ele existe). Quase toda cidade de médio e grande porte tem bibliotecas públicas. E, claro, sempre tem a internet. A internet não é só redes sociais, asquerosas, na maior parte das vezes, úteis, eventualmente. A internet é um sumidouro de informação (às vezes o problema é esse, o excesso...). De qualquer modo, a despeito de todos os revezes, existem sempre, mesmo nas condições mais adversas, um porto seguro para aprender a ler, tanto no sentido de alfabetização como no de letramento. A escola... 

E aí eu tento responder a pergunta. A escola é uma entidade de Saber, de Educação, de Conhecimento, de Vida, de Convívio Social, mas ela não é perfeita e tampouco faz milagres. Ela pode te provar que a Terra é uma esfera geóide, mas você só aprende se quiser. Ela pode te ensinar todas as formulas das Ciências Naturais e Exatas. Mas você precisa saber como e onde usar. E, inclusive, quando não lembrar, pode saber que muitos desses problemas podem ser resolvidos com uma regra de três simples. Que a escola também te ensina. A escola te ensina a ler, mas não pode te ensinar a pensar. Ela, no máximo, te empurra. Se você vai voar ou cair, a gente não pode saber. Com as crianças pequenas, a gente voa até um certo tempo. E como elas voam bem! Mas, mais do que de repente, elas soltam nossas mãos... esse voar, esse pensar com consciência, sobre cada aspecto da vida, vem com a força da Leitura. Vem também de outras fontes, de bons filmes, de conversar com pessoas sábias, de compreender a música que você está ouvindo – só que a compreensão se desenvolve com a Leitura... mesmo quando você lê seu romance épico cheio de água com açúcar, você está desenvolvendo sua gramática e seu vocabulário, provavelmente aprendendo alguma coisa com sua heroína favorita, e se divertindo, evidentemente. Com o tempo, você mesmo vai se interessar em buscar leituras cada vez mais diferentes, refinadas (não no sentido piegas, no sentido de que cada vez mais exigirão do seu intelecto para entender). Mas depende de você. Eu também poderia te dizer que a Leitura pode te ajudar a ter um emprego melhor, um salário melhor, mas isso é mentira. Não que seja totalmente mentira, mas essas coisas dependem de muitos outros fatores, que cada vez menos tem a ver com a sua capacidade e mais a ver com a quantidade de pessoas que você puxa o saco. 

Eu poderia escrever mais umas 300 palavras, mas eu já escrevi demais. A única coisa que posso dizer é que ler é minha maior âncora para ser alguém mais feliz, para ser alguém melhor. Para ter minha opinião própria, sem denegrir a outro (a não ser quando a do outro diz que a Terra é plana, ou algo assim), sabendo ouvir e refletir. Sabendo desenvolver minha empatia, minha solidariedade, aprendendo a diferenciar o que eu posso mudar daquilo que eu não posso. Inflando meu amor ao Conhecimento, pra valorizar a biblioteca da minha escola ou da minha cidade. Meu amor ao próximo, para me compadecer de quem morre, e até de quem mata, porque podia ser meu filho. Ser Leitor é ser Grande, é ser Livro. E ser Livro é ser Livre.


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